Band-aid na Gangrena

Após eterno período hibernando em berço esplêndido, pequena parcela deste florão da América acordou de um sonho intenso para notar o tumor maligno na próstata da Wonderland brasileira. Exaustas do repetitivo repertório de denúncias envolvendo o nome de cancros ligados ao atual proctologismo governamental (não que os anteriores também não gozassem enfiando o dedo no cu da população), comunidades de internautas começam a se mobilizar em marchas contra a Corrupção.

Indignação legítima e digna de aplausos por parte de qualquer um com o mínimo de respeito e vergonha na cara. Entretanto, faz-se necessário questionar se essa aberração disforme, que cresce alimentando-se nas entranhas das mesmas instituições que deveriam combatê-la, pode ser extirpada por meros placebos verborrágicos, pois não é preciso ser nenhum sociólogo exilado na Sorbonne para perceber que o monstro se esconde justamente dentro dos narizes putrefatos da própria sociedade, conivente com os jeitinhos, o menor esforço, as facilidades e os “cafés” para aliviar a barra de ”inofensivos delitinhos”.

Consequentemente, tal unguento, como todo ativisminho acéfalo, não possui em sua fórmula conhecimento analítico e menos subjetivo da origem da doença que almeja curar, sujeitando-se a ser mais um movimento festivo metido a Revolução Francesa em terras autóctones, sequer cogitando a remoção do câncer que infesta o corpo constitucional, mas contentando-se em cassar duas ou três células podres, que provavelmente terão seus direitos políticos restituídos, tão logo passe o efeito das vacinas sensacionalistas.

Em seu Contrato Social, o doutor Jean-Jacques Rousseau diagnostica que “assim como o regime das pessoas saudáveis não convém aos enfermos, não se deve querer governar um povo corrupto pelas mesmas leis que convém a um povo bom.”

Na aparência, a campanha movida pela internet é um grande processo de mudanças comportamentais, democráticas, sociais, políticas, blá blá blá, porém o heroísmo apregoado é na prática um mísero Band-aid na gangrena que corrói a estrutura do país, sendo demasiadamente cego para identificar na quantidade absurda de leis imbecis surgidas a cada dia, na extorsão tributária, nos meandros burocráticos, na subserviência partidária, na supressão das liberdades individuais e coletivas, nos processos eletivos viciados, no autoritarismo desenfreado, nos assistencialismos baratos, na falta de cidadania e educação, no tráfico de influência, nas desigualdades econômicas e na cultura da pobreza, as condições para a evolução da ferida aberta em todos os poderes da República.

Palavras de ordem a favor de quimeras democráticas, geralmente resultam apenas em tirania similar à de outros movimentos falidos como o “Diretas Já” e o “Caras Pintadas”. O primeiro teve como grande mérito apoiar a troca da ditadura física dos milicos pela psicológica do fisiologismo partidário, com o agravante de jogar nas costas dos cidadãos o ônus de indenizações obscenas a estelionatários políticos que jamais tiveram qualquer compromisso com a nação. O segundo, nada mais foi do que um carnaval fora de época patrocinado por grande emissora de televisão, que via parte de seus interesses contrariados naquele momento. Em ambos os casos, os titereiros conduziram com enorme desenvoltura a manipulação das cordas de suas marionetes.

Quem comprou pela primeira vez seu nariz de palhaço, roupa preta, corneta, flâmula revolucionária e saiu em desabalada carreira gritando “você é a doença, eu sou a cura”, lembre-se que os Sarneys, Fernandos, Dirceus, Genoínos, Mottas, Rorizes, Magalhães, Guimarães, Jefersons, Ladrufs, Carneiros, Pittas, Kassabs, Garotinhos, Garotinhas, Tiriricas, Moluscos de nove dedos, etc etc etc, são apenas reflexos da hipocrisia popular numa sala de espelhos distorcidos (ou não).

Pessimismo em Gotas

Falando nisso…

Sobre o autor

Há 38 anos, em um longínquo bairro da capital paulista, um estranho fenômeno ilustrava literalmente a expressão ‘foi um parto’. A pouca intimidade do garoto com os padrões de beleza vigentes não apenas naquela época, mas em toda a história da humanidade, faria com que o pai, um lorde de notória reputação, segurasse o jato rompante que procurava devolver o auspicioso jantar. Entretanto, apesar da indescritível feiúra que acometia a criatura, esta denotava um ar aristocrático e de empáfia jamais visto naquele meio, insurgindo na tradicional família uma dúvida atroz: “Jogamos essa coisa na privada e damos descarga ou vendemos para um circo?” Nem um nem outro. Graças a um inexplicável apego fraternal o menino cresceu, estudou Jornalismo, licenciou-se em História, colecionou gibis e discos de vinil, formou uma banda de rock com fins lucrativos que até hoje não ganhou um único centavo e graças aos deuses não se multiplicou. Cético e cínico por natureza, é conhecido em meio à boêmia como Roger Lopes, mas em face de seu doce otimismo, subscreve com o pseudônimo de Cândido Voltaire.