Cracolândia no Street View

Se olharmos no Google Street View a Rua Helvétia em São Paulo, você verá uma multidão de dependentes do Crack. Mas, se der um zoom, essa multidão some. Marketing? Nem sei. Só sei que o zoom do Street View mostra o que vem acontecendo nesses últimos dias em São Paulo, com as ações da polícia Militar sobre os usuários de crack da região. Eu não estou aqui pra defender o uso de drogas, se elas devem ser legalizadas ou não. O que eu acho uma “pouca vergonha” são as falácias do Governo em relação à chamada Cracolândia.

Conhecida como Cracolândia, a área se estende por várias ruas dos bairros de Santa Cecília, Bom Retiro e República, todos localizadas no centro de São Paulo. Nessa região, os dependentes de crack, droga considerada barata e altamente perigosa, ocupam prédios abandonados, e montam barracas perto de cartões postais da cidade, tais como a Estação da Luz, a Pinacoteca e a Estação Júlio Prestes.

Desde o dia 03 de Janeiro, a polícia tem feito abordagens diretas, que culminou na “expulsão” dos traficantes e viciados da área. O fato é que nem a polícia, nem as chamadas “ações sociais” do Governo do Estado ou da prefeitura conseguem ter uma solução efetiva, já que os “cracolenses” continuam circulando pela região. O trabalho é difícil. A polícia chega, os traficantes e viciados se dispersam. Cinco minutos depois, volta-se a ver um “bolinho” novamente em algum canto. Como a polícia mesmo diz, não há previsão de quando o policiamento ali irá acabar. Em várias ruas da capital se vê dependentes “avulsos” jogados embaixo de viadutos, em esquinas, em praças, esperando algum traficante “delivery” passar por ali.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse esta semana que “várias reuniões foram realizadas com a prefeitura de para decidir a ação conjunta que seria adotada na ocupação da Cracolândia”. Esse termo, ocupação, me causa um pouco de dubiedade. Quem vai ocupar o quê? A polícia vai ocupar a Cracolândia ou os viciados? Se fossem para tirar os dependentes, não seria desocupação? Deixando a brincadeira com a Nossa Língua de lado, voltemos às “ações” que o governo tem tomado.

Alckmin referiu-se à região como “ex-Cracolândia” e comemorou “os indicadores positivos” da operação. “Aumentou muito o número de pessoas procurando abrigos sociais. Agora estamos oferecendo mais 286 vagas em abrigos. Também aumentou muito a procura por internação voluntária, nenhuma foi compulsória. Foram sete por dia”, revelou. Esses são os números que eles mostram, mas eu me lembro dos outros. Segundo os dados da polícia essa semana, mais de 400 usuários vivem na região da Cracolândia, mais de 60 menores e 20 grávidas. O governo diz que o alvo da polícia são os criminosos que se aproveitam dos usuários para vender a droga, mas se observarmos o número de traficantes presos comparados ao número de dependentes, essa matemática não condiz com o suposto foca da ação.  Além disso, novas Cracolândias estão se formando em outros bairros circunvizinhos, como Vila Leopoldina e Jaguaré, e nenhuma ação policial é observada nesses novos pontos.

O pior de tudo é a onda de crimes que acontecem na região por parte dos dependentes, para obterem dinheiro ou em decorrência dos efeitos do vício. Isso me deixa irritada. Quer se matar com isso ou aquilo, você quem sabe, a vida é sua. Mas sustente seu vício, não dependa dos outros ou se transforme em criminoso. Aí vem um e outro e fala que essa pessoa é doente. Doente é quem morre de câncer, pneumonia, dezenas de doenças infecciosas. A pessoa não escolheu isso. Quem é viciado em drogas ilícitas, na minha opinião, escolheu se doente quando experimentou pela primeira vez. Como eu disse, opinião minha, não precisam concordar. Só não gosto de hipocrisia.

Além do mais, ao ler reportagens sobre a ação policial na área, o que eu vejo é mais politicagem, pois abriu o primeiro embate público entre os principais pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo no ano da eleição municipal. O ministro da Educação, Fernando Haddad (PT), classificou a ação de “desastrada” e afirmou, que a repressão violenta a usuários de crack contradiz o discurso de Alckmin. O governador, por sua vez se defendeu, dizendo que houve mais efetividade na ofensiva policial por conta dos usuários que recusavam-se a cooperar. O tema promete dominar o debate eleitoral sobre a ação da prefeitura na segurança pública e as políticas para recuperar a região mais degradada do centro da cidade. Até o Maurício Ricardo já fez uma charge baseado nisso. Hilário, porém tragicamente real. O povo da politicagem paulista fala em ajuda, que o principal é recuperar os doentes para que eles voltem à sociedade. E desde quando eles saíram da sociedade por serem dependentes? Se não fosse contra os direitos humanos, acho que esse pessoal do executivo ia mandar “abrir fogo” lá na Helvésia. Como eu disse, politicagem.

Falando nisso…

Sobre o autor

A "Paulixaba", Roberta Pereira Cambui, ou simplesmente ROX, que também atende pelo epíteto de Hipátia PhD, é professora de profissão e de coração. Aos 27 anos, é graduada em Letras, Línguas Portuguesa e Inglesa e Pós Graduada em ambas, é aspirante ao Mestrado de Lingua Inglesa pela Unesp, de Araraquara. Residente atualmente em Orlândia/SP, graças a dois concursos públicos galgados com muito esforço, ministra aulas em três escolas do município, nos três turnos. De origem luso-judaica e denominação anglo-saxã, foi forjada nas brumas do Cristianismo e cunhada totalmente pelo Ateísmo. Romântica assumida, sarcástica por opção, sente-se no dever de honrar e defender, com pena e nanquim, ou simplesmente bits e bytes, a categoria feminina no Negação Lógica.