Ma salaama, Haddad!

Desde julho de 2005 no cargo de Ministro da Educação, Fernando Haddad, despediu-se hoje (24) da explanada. Eu não podia perder a oportunidade de escrever em Árabe o título para dar um tchauzinho a ele, já que ele tem origem libanesa. A cerimônia de despedida foi sucedida pela cerimônia de posse de seu sucessor, o ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante. Haddad fez um balanço positivo sobre sua gestão à frente da pasta. Eu sinceramente gosto dele. O cara tem certa meritocracia. Ele é Bacharel em Direito, Mestre em Economia e Doutor em Filosofia, os três graus obtidos pela USP. Na web você até consegue a dissertação e a tese dele. Foi presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, o órgão representante do estudantes da Faculdade de Direito da USP. O ENEM já existia antes da entrada dela, mas foi durante seu “comando da sala” que o MEC transformou o exame no principal meio de acesso às universidades, através de bolsas de estudo (SiSU, ProUni) além de promover a certificação de jovens e adultos no Ensino Médio. O ENEM ainda é usado “avaliar” o desempenho de alunos que estão concluindo ou já concluíram o Ensino Médio (esse último eu tenho lá minhas reservas, pois tal avaliação ainda não trouxe resultados palpáveis, mesmo depois quase 14 anos). Esquecendo-se um pouco o momento bonitinho e as “rasgações de seda”, claro que o “governo Haddad” não foi lá tudo um mar de rosas. Sou professora, eu sei que não.

Primeiro de tudo, essa saída dele para preparar sua pré candidatura à Prefeitura de São Paulo me deixou meio desapontada. Tirou o “cavalinho da chuva” na hora em que a Educação mais precisava dele. Para piorar a situação, o Haddad deixou clara a estratégia de campanha pela Prefeitura de São Paulo. Alguém se habilita a adivinhar? Relacionar sua imagem à do ex-presidente Lula, fiador de sua candidatura. Todo mundo na aba do Lula. É impressionante a capacidade de “absorver óleo de peroba” que político tem. Em diversos momentos, o agora ex-ministro não só destacou seu trabalho à frente do Ministério da Educação, como também deu ênfase ao “legado” deixado por Lula em seus oito anos na Presidência.Olha a frase: “O legado de que nós temos que garantir a todos os brasileiros, indistintamente a todos, é o direito a um passo mais na educação”.Haddad citou os encontros que teve com reitores de universidades “ao lado de Lula” e as visitas que fez às instituições de ensino público, sempre acompanhado do ex-presidente.E o merchant foi feito.

Outra coisa foi o discurso de despedida dele. Ele não assumiu os erros, apenas colocou a culpa nos outros. Não gostei e explico: Haddad mencionou como obstáculos somente as críticas recebidas e não os problemas reais que existiram. Ressaltou os feitos do ministério nos últimos anos, sem reconhecer que houve falhas. Fingir que não existiram o furto das provas do ENEM em 2009 , os erros de impressão em 2010, e os vazamentos das provas 2011 nõ adianta. O que ocorreu não pode ser apagado (Vide a falta do Impeachment na paredes do Senado) nem esquecido e é falta de humildade não assumir o que se errou. Mas o que se esperava de um político?

Segundo declarações de Haddad, “deixo o ministério um pouco relutante porque é um ministério apaixonante, que empolga qualquer pessoa, e o deixo na mão de uma pessoa da mais alta qualificação técnica e competência política para levar à frente essa revolução silenciosa”, referindo-se a Mercadante. Essa cerimônia, na verdade, foi uma melação só, de tantos elogios mútuos. Era Dilma elogiando Haddad e vice-versa, depois Mercadante elogiando Haddad, e por aí vai, pois cerimônia oficializou a primeira mudança da reforma ministerial da presidente Dilma Rousseff. No lugar de Haddad, assumiu Mercadante, que deixou o Ministério da Ciência e Tecnologia. Para substituí-lo, Marco Antonio Raupp, até então presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira). Finalmente um da própria área, pois não entendo porque o Ministro da Educação não é um educador, o da Economia, um economista, o da Agricultura um agrônomo e assim por diante. Não seria mais viável pra resolver os problemas relacionados? Aí é que está o problema. Ministério é mais politicagem que gestão democrática. E essa “festinha de despedida” do Haddad não me deixa mentir. Dilma, por sua vez, afirmou ter feito a escolha certa na troca de ministros, mas só o tempo dirá isso. Olha a falácia de nossa presidenta: “Essa não é apenas uma cerimônia de posse, mas um casamento entre inovação, ciência, tecnologia e educação. Quando o presidente Lula chegou ao governo, não tínhamos de dar conta só da eliminação da pobreza, mas havia também o desafio de elevar o conhecimento da nossa população para sermos capazes de gerar uma massa crítica que produz ciência e inovação. Por isso sei que esse casamento é que vai transformar o Brasil.”

Eu tento defender. Tento me convencer que há políticos honestos e bem intencionados. Mas são essas e outras que me fazem perder a fé que já não tinha. Paradoxal, não é? Olha a falácia política, nas palavras dele: “Assumi o MEC em condições muito adversas. Esse salão não contava com pessoas com uma expressão tão feliz como hoje. A cada desafio lançado, e não foram poucos, o debate se instalava, com turbulências conhecidas e o retorno favorável aos avanços. Em todas as iniciativas do MEC não nos faltou crítica, reflexão e apoio no momento de decisão”.

Eu assisti à cerimônia hoje por um canal na internet e, descrente das declarações, às vezes achava graça. Achava que éramos meio pagantes em um circo pra assistir às palhaçadas no “picadeiro central”. Ao assitirmos às declarações, somos o público. Ao acreditarmos nelas e ao sermos afetados por elas, viramos os palhaços. Ma, salaam, Haddad. Seu novo desafio é converncer os paulistanos. E, se bobiar, vai.

Falando nisso…

Sobre o autor

A "Paulixaba", Roberta Pereira Cambui, ou simplesmente ROX, que também atende pelo epíteto de Hipátia PhD, é professora de profissão e de coração. Aos 27 anos, é graduada em Letras, Línguas Portuguesa e Inglesa e Pós Graduada em ambas, é aspirante ao Mestrado de Lingua Inglesa pela Unesp, de Araraquara. Residente atualmente em Orlândia/SP, graças a dois concursos públicos galgados com muito esforço, ministra aulas em três escolas do município, nos três turnos. De origem luso-judaica e denominação anglo-saxã, foi forjada nas brumas do Cristianismo e cunhada totalmente pelo Ateísmo. Romântica assumida, sarcástica por opção, sente-se no dever de honrar e defender, com pena e nanquim, ou simplesmente bits e bytes, a categoria feminina no Negação Lógica.