Narizes Feitos Para Sustentar Óculos

Devo admitir perante os mais profundos ensinamentos de mestre Pangloss que as recentes incursões dos magnânimos barões de nosso amado Castelo Brasil nas doutrinas morais e dos bons costumes muito me deixam otimista em relação ao promissor desfuturo desta proeminente Westphalia tupiniquim.

As medidas aprovadas na madrugada desta quarta-feira pelo incansável senado brasileiro, aumentando a chamada “gorjeta” cobrada pelos bares e restaurantes, de 10% para 20%, me remetem a um bucólico cenário de justiça social, cuja beleza só encontra semelhança nos olhos de minha bela e desejada Cunegunda.

O auspicioso Projeto de Lei regido por este Robin Hood institucional moderno defende bravamente expropriar dos tiranos opressores boêmios consumistas para dar aos pobres serviçais dos extorquidos donos de estabelecimentos noturnos.

Tal ato de compaixão advinda da caridade com a cartola alheia, valentemente justificado pelo senador Marcello Crivella para “beneficiar garçons e outros trabalhadores de bares e restaurantes que exercem atividade tarde da noite e na madrugada, pois eles estão mais sujeitos a riscos de violência, sofrem com as dificuldades de transporte e estão submetidos a um grau de penosidade maior do que aqueles que trabalham nas primeiras horas da noite ou durante o dia”, trouxeram-me lágrimas aos olhos.

Esta mostra de benevolência extrema apenas comprova que vivemos no melhor dos mundos possíveis, como enaltece a sabedoria inconteste de meu digníssimo mestre Pangloss, pois nada justifica que tais consumidores esbanjem suas posses ousando se divertir em horários inapropriados, colocando em risco a imponente imagem de eficiência do Estado e de seus varonis barões, afinal tudo está bem mesmo quando está mal.

Falando nisso…

Sobre o autor

Há 38 anos, em um longínquo bairro da capital paulista, um estranho fenômeno ilustrava literalmente a expressão ‘foi um parto’. A pouca intimidade do garoto com os padrões de beleza vigentes não apenas naquela época, mas em toda a história da humanidade, faria com que o pai, um lorde de notória reputação, segurasse o jato rompante que procurava devolver o auspicioso jantar. Entretanto, apesar da indescritível feiúra que acometia a criatura, esta denotava um ar aristocrático e de empáfia jamais visto naquele meio, insurgindo na tradicional família uma dúvida atroz: “Jogamos essa coisa na privada e damos descarga ou vendemos para um circo?” Nem um nem outro. Graças a um inexplicável apego fraternal o menino cresceu, estudou Jornalismo, licenciou-se em História, colecionou gibis e discos de vinil, formou uma banda de rock com fins lucrativos que até hoje não ganhou um único centavo e graças aos deuses não se multiplicou. Cético e cínico por natureza, é conhecido em meio à boêmia como Roger Lopes, mas em face de seu doce otimismo, subscreve com o pseudônimo de Cândido Voltaire.